Lições de toga
Como todos, estive vendo o julgamento dos vagabundos do STF.
Penso que são como lições a todos que ainda são razoavelmente jovens e cheios de sonhos. Vamos assistindo àquele festival de mau uso da língua, aquela panfletagem a respeito de coisa nenhuma, aquelas mentes claramente pequenas, submissas a algo que sequer nomeiam, mas que kafkianamente compreendemos, e pensamos: é possível alcançar o que desejamos.
A boa intenção e o caráter devem valer algo. Não é possível. Dêe-nos algum tempo. Acreditar em nós mesmos é um pouco como uma última rebeldia, numa época em que os homens que deveriam zelar pelo país o atiram na lama sem que ninguém grite exaltado.
Mas há, em meio ao lixo, questões de sociologia, ao menos.
Agora sabemos, por exemplo, até onde vai o horizonte intelectual do ministro Dino: Fábio Porchat. Bom, mais ou menos explicado. Com um pouco mais de afinco ele chega aos sonetos do Gregório Duvivier. De fato, pegando as referências, entende-se um homem. No fim das contas é tudo mais ou menos sobre livros.
A ministra Carmem Lúcia se fazendo de muito limpinha. De muito coitadinha enquanto pedia desculpas -- pelo quê não ficou exatamente claro. De minha parte, só peço desculpas por aquilo que me cabe. De modo que ou a ministra é cínica, ou oculta sua responsabilidade. Raramente simpatizei com pessoas que, responsáveis até o pescoço, fingem neutralidade travestida de superioridade moral.
Outra coisa triste no julgamento desses criminosos é que a chance de voar cadeiras é bastante pequena. Essas demonstrações de juridiquês mal decoradas, e o falso respeito mútuo nos tira a única coisa que nos manteria presos a esse teatro: a chance de virar uma baixaria de cortiços.
Fui mais moldado pelo cinema nacional circa 1970 do que gostaria. Por isso ando tão cuidadoso com o que assisto hoje em dia. O imaginário, noto. É preciso adestrar com zelo o imaginário.
Desligo o julgamento e me ponho a ler um livro.
Os sobreviventes que escrevam a respeito. A história nada mais é do que o conjunto de relatos de meia dúzia de náufragos.
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